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Narrativa digital e jornalismo 2.0

Posted by Jean Pluvinage On May - 27 - 2009

A narrativa digital não é uma idéia criada espontâneamente por nossa geração. Ela é o produto de um longo processo histórico que, com as novas tecnologias, expandiu as possibilidades da antiga arte de contar histórias. Antiguidade evidenciada pelos Vedas hindus e a epopéia de Gilgamesh na Mesopotâmia. O passado é portanto fonte de conhecimento dos primeiros indícios da nossa atual narrativa digital.

Um exemplo é a interação dos leitores entre si e com o narrador, recurso usado em fórums, redes sociais, MMORPGs, entre outras ferramentas de comunicação digital. É uma interação que permite a presença do leitor durante a produção da narrativa – possibilitando até a sua participação na criação de histórias. Essa interatividade digital é um resgate das primeiras narrações. A cultura humana, antes da invenção da escrita, era transmitida para as próximas gerações por meio da narrativa oral. Narrativa que já contava com a participação dos ouvintes, um feedback de quem ouvia os relatos míticos dos xamãs e aedos. Com a narrativa escrita foi possível a melhor conservação da cultura humana, mas a flexibilidade foi eliminada, o narrador não podia se adaptar à receptividade dos ouvintes. O que fosse escrito na pedra, argila ou papiro devia ser lido com passividade: a narrativa se petrificou, literalmente.

A narrativa digital resgata a interação desses antigos narradores. Mas e as narrativas que não estão relacionadas à imaginação do narrador? Aquelas que relatam fatos do cotidiano? É possível interagir com narrativas de não-ficção? Uma vertente da narrativa digital é o jornalismo 2.0 que tem como característica a rapidez da divulgação da notícia com a interatividade do meio eletrônico. Mas ao contrário dos aedos e xamãs o narrador jornalístico não pode ser “flexível” com sua história. Os personagens não podem ser inventados, os acontecimentos devem ser relatados com exatidão, as fontes de informação devem ser checadas. A objetividade total é impossível, por isso há a necessidade de uma rigorosa metodologia para que a narrativa jornalística tenha credibilidade. É possível criar, com as ferramentas da web, um ambiente virtual narrativo jornalístico, mas que deve responder aos fatos e acontecimentos com isenção.

As possibilidades de interação com uma forma narrativa tão rígida existem. A notícia, embora não possa ser manipulada no seu conteúdo factual, pode ser totalmente alterada em seu formato. De um simples texto estático uma reportagem digital pode adquirir infográficos interativos, espaço para comentários, tags que levam o leitor para páginas relevantes ao assunto da reportagem, realidade aumentada para mostrar informação em três dimensões. É importante esclarecer que o foco continua sendo na informação e não no formato digital, ou seja, as ferramentas web devem ser utilizadas somente se elas permitirem transmitir informação com mais clareza e eficiência. Toda tecnologia que não oferece eficiência na comunicação e na informação é apenas um ruído.

Com o jornalismo 2.0 o leitor deixa de ser passivo, e consegue até mesmo ser um divulgador de notícias. Ele pode auxiliar sites, blogs e redes sociais com fotos, imagens e textos de sua própria autoria. A participação do leitor na produção jornalística constitui uma nova forma de obter conhecimento: é o jornalismo colaborativo e cidadão, um meio de comunicação alternativo em relação às “grandes” mídias. Mas o jornalismo cidadão não é isento de falhas. Ele corre o risco da falta de exatidão e checagem precária das informações.

Pode-se até perguntar: se o leitor pode produzir e divulgar informação, então qual a necessidade de um jornalista? Estará ele em extinção? Curiosamente voltamos à figura dos xamãs e aedos. Todos podem contar histórias, mas dominar técnicas de narração, praticá-las com isenção e além disso saber usar os melhores recursos digitais para a reportagem é a qualidade reservada aos jornalistas dedicados à narrativa digital.

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Fundado no segundo semestre de 2008, o Grupo de Pesquisa em Narrativas Digitais e-Storias, é a expressão do desejo de compreender as narrativas criadas no ou transpostas para o ambiente digital.

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