
Dr. Jorge Luiz por Bruna La Serra
O doutor em Comunicação e Semiótica, especialista em Literatura pela PUC de São Paulo, Jorge Luiz Antonio lançou recentemente o fruto de 5 anos de seu trabalho: o livro e CD-Rom “Poesia Eletrônica: negociações com os processos digitais”.
Nesta entrevista, Dr. Jorge Luiz dispõe de seu tempo precioso para responder à algumas questões levantadas pela coordenadora do grupo e-Storias. Mostrando simpatia e o espirito colaborativo que apenas os verdadeiros pesquisadores possuem, Dr. Jorge Luiz oferece informações valiosas para os pesquisadores das áreas de tecnologia, poesia e processos de comunicação mediados digitalmente.
Julia Stateri - Jorge, tenho em minhas mãos o resultado de sua pesquisa sobre poesia e tecnologia, o livro e o CD-Rom Poesia Eletrônica: negociações com os processos digitais. Em primeiro lugar, meus parabéns pela qualidade do material e pela variedade de conteúdo apresentada. Gostaria de saber o que moveu o seu trabalho com relação ao estudo da Poesia Eletrônica. Será que você poderia relatar brevemente como surgiu a idéia para sua obra?
Jorge Luiz Antonio - Agradeço-lhe, em primeiro lugar, a gentileza de me conceder um espaço, melhor dizendo, um ciberespaço em e-Storias.
Vou comentar e responder em um único parágrafo, sempre que possível, cada uma das suas afirmações e perguntas. Assim, o ciberleitor poderá apreciar melhor nossa troca de ideias.
Quero lhe informar que na segunda edição, que será bilíngue (português/inglês), o Poesia eletrônica será uma brochura e um DVD.
A variedade do conteúdo dificultou uma unidade lógica de abordagem e levou muito tempo, desde a tese de doutorado de 2005 (vide entrevista concedida a Rogel Samuel) até a versão revisada, atualizada e ampliada de 2008, para eu poder considerá-lo adequado para uma publicação. Depois de resolvida essa questão pessoal (dar o livro por concluído para publicá-lo), tive que fazer a atualização da melhor forma possível, para que se adaptasse a uma forma impressa e a uma forma digital, procurando sempre que a passagem de um para outro meio fosse a mais espontânea possível.
As relações entre arte, poesia e ciência sempre fizeram parte dos meus estudos e das poucas criações que fiz. Sou formado em Biologia, antes do curso de Letras. Desde os tempos de adolescente, fazia poesias com temas científicos. Muito tempo depois, saiu Ciência, arte e metáfora na poesia de Augusto dos Anjos e Cores, forma, luz, movimento: a poesia de Cesário Verde. Para ter uma ideia panorâmica desse livro, indico a entrevista concedida a Djalma Luiz Benette.
O estudo da poesia eletrônica, em especial, foi motivado e inspirado pelo Curso de Infopoesia e Poesia Sonora, ministrado pelo poeta experimental português E. M. de Melo e Castro em 1997. O curso e a personalidade entusiasta, criativa e bondosa do mestre e amigo, me motivaram a buscar um estudo contemporâneo. Em 1996, eu tinha assistido uma palestra sobre Poesia Experimental Portuguesa e ficara encantado com as informações.
Algum tempo depois, estava ainda no mestrado e, ao preparar um texto sobre a infopoesia de Melo e Castro, optei por estudar poesia eletrônica no doutorado, para o qual me candidatei.

Poesia Eletrônica
JS - No seu trabalho você menciona a relação entre o poeta e a tecnologia. É sabido que a evolução tecnológica vem mudando a maneira como os leitores e apreciadores das mais diversas formas literárias se relacionam com suas obras de interesse. O processo criativo do escritor e do poeta também parece mudar com essa evolução. O que você tem observado através de seus estudos?
JLA – O processo criativo do escritor e do poeta consiste na negociação semiótica com as novas tecnologias, dentre elas, as computacionais. Eu prefiro o termo “negociação”, ao invés de “influência”, “impacto”, “tecnopólio” (Neil Postman), etc.
Abraham Moles (1920-1992), em Arte e computador, cuja primeira edição é de 1971, afirmou o seguinte:
A criação artística introduz no nosso ambiente circundante formas que dantes não existiam. Formas sonoras, formas visuais, formas literárias, formas de movimento, e todos estes aspectos recobrem uma mesma realidade. Gratuidade, criatividade, vontade de subversão dos estilos são as características principais da arte contemporânea.
Durante as minhas pesquisas, pude observar que essa mudança vem ocorrendo lentamente e se faz em três momentos ou etapas, não necessariamente sequenciais, nem sempre em ordem cronológica e não obrigatoriamente pelos mesmos poetas.
O primeiro momento é quando os neologismos e conceitos tecnológicos são assimilados pelo poeta para uso pessoal, social e profissional e, depois, se tornam temática das poesias.
Uma outra fase, ou segundo momento, não necessariamente posterior, do ponto de vista cronológico, compreende a partilha de procedimentos da tecnologia e da ciência que passam a ser imitados ou aproveitados para o fazer poético.
Esses dois primeiros momentos não podem ser denominados de poesia eletrônica, no sentido que foi conceituado no livro cd-rom. É por isso que dediquei o segundo capítulo - Poesia, arte, ciência e tecnologia - a um panorama histórico desde a Grécia Antiga à atualidade.
Num terceiro momento ocorre a intervenção do poeta na tecnologia, transformando as linguagens poéticas, artísticas e tecnológicas. Agora podemos denominar de poesia eletrônica ou digital.
JS - No que se trata do computador e da questão da autoria, entramos em discussões bastante profundas e atribuladas. Algumas destas discussões levantam também o debate acerca da definição de arte. Na sua opinião, partindo do meio eletrônico, o objeto torna-se passível à perda da categoria de arte e o seu criador da categoria de autor e artista?
JLA – Tenho conhecimento das questões ligadas ao computador e à autoria, mas não foi esse o enfoque das minhas pesquisas. Mesmo assim, penso nelas com certa frequência, pois esse assunto vem sendo estudado bastante, e constantemente me perguntam sobre o assunto.
A questão da autoria é tratada de diferentes modos na história da cultura: existe de forma coletiva até a Idade Média e passa a ser individual a partir do Renascimento.
Dizer que esta obra é de determinado autor (seja ele uma pessoa ou uma equipe multidisciplinar) implica em afirmar que essa determinada pessoa, num determinado momento histórico e cultural, com base na cultura recebida dos seus antepassados, por intermédio da família, da escola e da sociedade, estabeleceu algumas relações especiais, originais, características, e, de acordo com as regras sociais ou convenções, as assumiu como suas.
A sociedade tecnológica contemporânea está procurando questionar essa autoria, assumindo que um artista ou poeta digital, por exemplo, nada mais fez do que o programa lhe permitiu. Nessa linha de pensamento, também poderíamos entender que artistas e poetas de séculos anteriores fizeram algo semelhante, ou seja, não avançaram mais do que os “programas” e tecnologias do seu tempo permitiram.
A questão do gênio individual, ou demiurgo, está vinculado ao período romântico, mas me parece que, por menor que pareça, qualquer interferência poderia ser considerada como autoria.
Se considerarmos que herdamos uma cultura de nossos antepassados, que seguimos determinados mestres, que escolhemos este ou aquele estudioso como nosso modelo, parece não haver autoria individual, mas sim coletiva. Ficaria, então, mais adequado pensar nas relações que determinado poeta faz a partir do que assimilou e, assim, pensaríamos em parceria.
A arte no meio eletrônico continua a ser arte, acrescida agora de seu elemento tecnológico. A poesia eletrônica também pode ser vista nesse enfoque, como uma tecno-arte-poesia. Autor, poeta, artista, programador, máquinas e programas continuam existindo, mesmo que sejam coletivos.
Em Cibercultura, Pierre Lévy afirma:
O engenheiro de mundos surge, então, como o grande artista do século XXI. Ele provê as virtualidades, arquiteta os espaços de comunicação, organiza os equipamentos coletivos da cognição e da memória, estrutura a interação sensório-motora com o universo dos dados.
Trinta anos antes dele (a primeira edição francesa do livro é de 1997), E. M. de Melo e Castro fala que um novo renascimento,
nova forma de cultura humanizante de tipo clássico se torna necessária, onde as duas faces da actividade criadora do homem, a cientifica e a artística, se possam reencontrar e até sintetizar. Essa nova cultura sintética, clássica, será de princípio tão incompreensível e inadmissível tanto para os literatos como para os técnicos.
JS - Para o grupo e-Storias, interessa discutir e relacionar temas ligados às narrativas digitais. A narrativa possui sua vertente poética, portanto nossos campos convenientemente se cruzam. Nas suas pesquisas você dedica uma parte de seus esforços à compreensão das narrativas eletrônicas poéticas? Relate.
JLA – Eu gosto muito da prosa de ficção (romance, novela e conto) do meio impresso e também tenho um grande e igual apreço pelas narrativas digitais. Não pude estudar o assunto com a intensidade que gostaria, por isso meu livro cd-rom não trata das narrativas digitais diretamente, mas há exemplos que podem ser considerados como “narrativas eletrônicas poéticas”, ou “prosas poéticas digitais”.
Minha primeira lembrança para exemplificar é a obra de Joel Weishaus, dos EUA, que gentilmente editou todo os textos em inglês no meu livro cd-rom. Trata-se de “Haunting the Prehistoric“, em que até o motivo da criação é narrativo. A prosa experimental desse autor apresenta uma hipertextualidade que traz relações com o tempo e o espaço e, portanto, apresenta uma narratividade. Ele a denomina de “arte literária digital”.
Há inúmeros casos de uma estrutura narrativa que aparece em textos poéticos, sem nenhuma incursão pelos meios digitais, como, por exemplo, “Poema tirado de uma notícia de jornal”, de Manuel Bandeira.
Na antologia de poesias do livro cd-rom, eu poderia citar: “Imaginary Post Office”, de Randy Adams, que oferece uma interação do ciberleitor para compor envelopes, carimbos e cartões postais; as “Tiras”, de Roland de Azeredo Campos, que trabalha com textos narrativos diversos; “Buraco de minhoca”, de Ricardo Corona e Maxx Figueiredo, cujos diálogos apresentam elementos poéticos, com imagens que dialogam com a estrutura das histórias em quadrinhos; “The Gates of Paradise”, de David Daniels, que contém pequenas narrativas em texto com formato visual e digital poéticos; “Poema por conjuntos”, de Roberto Cignoni, que é uma narrativa com fórmulas matemáticas, mas numa estrutura poética; e assim por diante.
JS - É bastante interessante sua menção à questão da poesia interativa e cooperativa. Atualmente existem ferramentas de mediação social online que permitem uma maior flexibilidade na criação colaborativa, porém, novamente, entram em questão termos que parecem fazer parte de um passado cada vez mais distante: “autoria”, “interatividade” e “linearidade” são alguns dos termos utilizados ou mal utilizados até a exaustão. Gostaria que você comentasse sobre estes e outros termos ou conceitos tão frequentemente mencionados e ao mesmo tempo tão pouco compreendidos.
JLA – Essa é uma das boas questões que você cuidadosamente apresentou.
A perspectiva do meu estudo foi histórica e panorâmica. Foi o que pude fazer na primeira fase das pesquisas, portanto, me pareceu mais adequado olhar essas questões - autoria, linearidade, não linearidade, interatividade, etc. - nos momentos em que surgiram e que, em muitos casos, foram pouco explorados pelos poetas nesse momento. Devemos nos lembrar que foi feito aquilo que a tecnologia e a criatividade do momento permitiram realizar.
As ferramentas atuais de mediação social online, que permitem uma maior flexibilidade na criação colaborativa, como você disse, merecem outro enfoque, de acordo com o predomínio da tecnologia ou da criação artística: mais tecnológico e menos artístico (criativo), mais artístico e menos tecnológico, ou equilibrado.
Vamos exemplificar: “Universal Verse / Verso Universal”, de Philadelpho Menezes (1960-2000), de 1995, foi um sítio no qual os poetas, dos mais diferentes países poderiam escrever pequenos poemas, portanto, mais poético do que tecnológico.
“text_TOWER“, de miEKAL aND (EUA), de 2001, equilibra criação artística e poética e tecnologia.
“The Longest Poem in the World“, de 2009, criado pelo webdeveloper Andrei Gheorghe (Romênia), é mais tecnológico do que criativo, pois produz textos automáticos, sem praticamente nenhum critério estético.
Podemos estender e relativizar o conceito de autoria para co-autorias com finalidades estéticas, colocando uma lista de créditos, como ocorre nos filmes e em algumas obras, como o livro CD DVD Nome (1993), de Arnaldo Antunes, Célia Catunda, Kiko Mistrorigo e Zaba Moreau; ou o livro CD Cadê (1998), de Luís Turiba.
A interatividade ocorria antes dos meios digitais e apresentou acréscimos positivos e negativos com as tecnologias digitais, e isso depende do uso que se faz dela. Podemos promover a interação de artistas e produzir obras coletivas, colaborativas entre um determinado grupo, ou simplesmente usarmos interatividade para um grupo cuja preocupação é interagir por interagir, ou para finalidades predominantemente comunicacionais.
Linearidade e não linearidade também dependem dos usos que fazemos. Elas existiam antes dos meios digitais. A linearidade permite um encadeamento lógico de informações e isso pode ter finalidades didáticas, informativas, comunicações. Se se pretende produzir plurissignificação, a não linearidade pode oferecer novos caminhos.
JS – Muito obrigada pela sua atenção e contribuição ao nosso grupo, Dr. Jorge Luiz. Para quem quiser entrar em contato com você ou comprar um exemplar do seu trabalho mais recente, como se deve proceder?
JLA - Eu é que agradeço a oportunidade de uma troca de ideias.
Ainda tenho alguns exemplares do livro CD-Rom. Quem estiver interessado pode entrar em contato pelo e-mail jlantonio(a)uol.com.br.
Mas o contato para o início de uma troca de ideias também será bem-vindo.



