A herança asimoviana da música

Posted by Julia Stateri On November - 30 - 2009

A literatura ficcional e os cenários criados por seus autores vem inspirando compositores ao longo dos tempos. Alguns exemplos destas expressões podem ser encontrados nas obras de Wilhelm Richard Wagner (1813-1883), compositor alemão que dedicou praticamente o total de sua obra à exploração do folclore e misticismo presente nas lendas nórdicas. De modo algum, entretanto, Wagner poderia ser considerado desacompanhado nesta empreitada: Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809-1847), já aos 17 anos de idade, baseia-se no mundo ilusório e onírico proposto por William Shakespeare (1564-1616) para compor “Sonho de uma noite de verão”, mantendo o título da obra de sua inspiração.

Poderíamos continuar com extensas citações, passando pelo escritor Ernst Theodor Amadeus Hoffman (1772-1822), cujas obras literárias influenciaram grandes nomes da música e alimentaram seu imaginário criativo, servindo de enredo para conhecidas óperas: Tannhauser de Wagner, Brautwahl de Busoni, Cardillac de Hindemith, dentre outras.


Fatalmente chegaríamos à poesia concreta e à composição contemporânea de John Milton Cage (1912-1992), cujo desenvolver dos meios caminhou lado a lado numa evolução co-dependente.

Neste entremeio, Isaac Asimov (1920-1992) ou mais especificamente sua obra, vem influenciando compositores e grupos experimentais até a atualidade. Talvez por tratar, já em 1950, de temas voltados à tecnologia e ao respeito da individualidade dos seres. Através do distanciamento da ficção, Asimov conseguiu o que poucos e bons autores conseguem: tornar-se atemporal.

Um exemplo de sua influência pode ser encontrado na obra do grupo alemão Kraftwerk que em 1970 preconizava um ritmo que viria a despontar na atual música eletrônica. O Kraftwerk expressa a visão asimoviana do robô como escravo, como criatura que existe unicamente para servir aos seus senhores. No desenrolar de sua trajetória, apresenta indícios (também asimovianos) de um robô que se compreende como ser senciente e, tomando esta consciência de si e do mundo que o cerca, anseia por sua liberdade.



O trabalho do grupo Kraftwerk é crítico e embora possa nos parecer ingênuo consegue, como o de Asimov, transcender as barreiras temporais para falar de materialismo, superficialidade nos relacionamentos pessoais e criticar o comportamento padronizado.

Bebendo da mesma fonte temos na atualidade a dupla norueguesa Röyksopp, que incorpora elementos da mídia cinematográfica e dos videogames em sua obra.

Em se tratando da influência asimoviana, o trabalho mais pontual da dupla conta com a participação da cantora Robyn interpretando uma mulher que se encontra envolvida emocionalmente pelo seu objeto de desejo: um robô. Aqui ocorre a inversão de papeis discutida em diversas obras de Asimov, pois o robô deixa de ser objeto e escravo para se tornar senhor dos sentimentos de um ser humano. No caso da obra de Röyksopp e Robyn, tal inversão é altamente danosa, pois o robô encontra-se em seu estado pleno e invulnerável, totalmente alheio a qualquer expressão sentimental ou emocional.

De certo modo essa expressão futurista conversa com a realidade atual, na qual seres humanos apegam-se facilmente a objetos de desejo e chegam e defende-los com mais afinco do que aos direitos de seus iguais.

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