Entrevista com Philippe Bootz, da Université Paris 8

Posted by Julia Stateri On April - 26 - 2009

Durante a pesquisa que realizei para a produção da minha dissertação de mestrado, tive a oportunidade de entrevistar por e-mail o pesquisador em poesia eletrônica Philippe Bootz. Extremamente simpático e prestativo, Bootz respondeu às minhas questões com muito boa vontade. O resultado da entrevista podemos ver aqui em duas versões, em português e inglês.
1-) Por muitos anos nossa cultura e história foi transmitida oralmente, ao mesmo tempo, pictogramas, pinturas e tipos de escrita foram evoluindo de modo a estocar mais informação. Desde o contar histórias oral até a criação dos livros escritos a história vem sendo contada por indivíduos selecionados. Como isso influenciou as pessoas comuns no modo delas verem a história de sua cultura? Como isso influenciou as pessoas comuns no modo como elas contam suas histórias pessoais?

R: Não tenho muito o que dizer sobre essa questão, sendo que está fora do meu domínio de criação e especialidade. Nos tempos antigos os indivíduos que escreviam a história eram escolhidos pelo príncipe. Passado este tempo, com a difusão dos livros, isso deixou de acontecer e outros mecanismos de legitimação foram criados (mecanismos de publicação por exemplo, museus…). A revolução pós-moderna é a reação contra este sistema e a partir dela todas as pessoas tornam-se livres para contar sua história pessoal.

2-) Escritores são indivíduos selecionados que dominam um código e uma série de regras que resultam no texto. Por um longo tempo apenas poucos textos ganharam reconhecimento nas sociedades, espaços e no decorrer dos séculos. Agora com a tecnologia, é possível que a escrita se torne mais democrática? Ou os códigos a se dominar apenas foram substituídos por outros? Qual sua visão sobre essa transição?

R: Uma tecnologia nunca provê liberdade. Essa liberdade já era possível com o livro. Apenas a filosofia da sociedade pode prover liberdade, a liberdade é escolha da sociedade (veja o que acontece na China com exatamente a mesma tecnologia). A Tecnologia pode ajudar a aumentar a liberdade ou democracia, mas de fato a rápida e contínua mudança da tecnologia é um problema para essa democracia: uma nova casta de “gurus” apareceu, o tecnologista, o programador. Há sempre dominação com a tecnologia e ambas situações podem existir para os escritores: eles conhecem o suficiente da tecnologia (mas é um trabalho contínuo por causa da rápida mudança) ou eles são ajudados pelos técnicos, que só podem fazê-lo em alguns projetos. A questão da dominação não é apenas uma questão de código: toda a dimensão técnica precisa ser dominada.

3-) A Internet se tornou um palco inteiramente novo para as performances de arte, apresentações poéticas, vídeos, músicas e, claro, histórias ficcionais e não-ficcionais. Como você vê este cenário para artistas e escritores?

R: A Internet traz suas próprias possibilidades e limitações. O mais importante é que todos os trabalhos dependem de browsers e linguagens que os browsers interpretam. Então o trabalho pode ser bem diferente de uma máquina para outra. Para mim, este fato demonstra que um autor não tem liberdade real neste sistema, ele é apenas um co-autor e estes detalhes podem mudar muito rapidamente. Então, Internet é um contexto específico, adequado para difusão, mas eu acho que nela os trabalhos visuais tem um curto período de vida.  É necessário se combinar outros modos digitais de divulgação. De fato, trabalhos específicos podem ser feitos para a internet, em relação com bases de dados, streams, agentes e robôs…É um novo tipo de trabalho.

Nascido em 1957, Philippe Bootz trabalha como professor assistente em multimídia na Universidade de Versailles – St. Quentin, como pesquisador no Paragraphe Laboratory (da Universidade Paris 8) e no Laboratório de Música Digital de Marseille (MIM). Ele tem sido contribuinte na área de multimídia no ENSCI (em Paris) desde 1999 e presidente da associação MOST-VOIR  desde 1984. Philippe Bootz é o co-fundador do grupo francês L.A.I.R.E., desde 1988, e desde 1989 o editor de ‘alire’, o primeiro jornal europeu multimídia e referência de poesia eletrônica. Ele também foi co-fundador da coletânea internacional ‘Transitoire Observable’, em 2003. Como um autor, ele vem trabalhando com instalações textuais bem como com poesia programática desde 1978.

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During the research that conducts to the production of my Master Degree’s dissertation, I had the opportunity to interview by e-mail the researcher in electronic poetry Philippe Bootz. Extremely friendly and helpful, Bootz replied to my questions with very much goodwill. The result of the interview can be seen here in two versions, in Portuguese and English.

1-) For many years, our culture and history was been transmitted orally, at the same time pictograms, paintings and kinds of writing was evolving to store more information. Since the orally story telling until the creation of the books, history was tolled by selected individuals. How this influenced common people in the way to see the history of they culture? How this influenced common people in the way to tell they personal story?

 A: I have not many things to say about this question. It is out of my domain of creation and expertise. In the old times individuals that wrote the history of culture were chosen by the prince. After this, with the diffusion of the book, this was no more a true and other modes of legitimation were made (mechanism of publishing for example, museums…). The post-modern revolution is a reaction against this system and now everybody is free to tell his personal story.

 2-) Writers are selected individuals who dominate a code and a series of rules that results in texts. For a long time just few texts had gained recognition around societies, spaces and centuries. Now with technology, it is possible that the writing turn out as something more democratic? Or the codes to dominate just have changed to new ones? What is your vision about this transition?

 A: A technology never gives freedom. This freedom was already possible with the book. Only the society’s philosophy can give freedom. Freedom is a choice of society (look at was happen in china with exactly the same technology). Technology can help to increase freedom or democracy but in fact the continuous quick changing in technology is a big problem for democracy : a new caste of “guru” has appeared,  the technologist, the programmer. There is always domination with technology and both situations can exist for writers : they know enough technology (but it is a continuous work because of quick changing) or they are helped by technicists, that can only do on some projects. The question of domination is not only a question of code : the whole technical dimension must be dominated.

 3-) Internet has turned into a completely new stage to performances of art, to presentation of poetry, videos, music and, of course, fictional or non-fictional stories. How do you see this scenery to artists and writers?

A: Internet has its own possibilities and constrains. The most important is that all works depend on browsers and that the language used by a browser is interpreted. So, the works can be very different from a machine to another. For me, this fact demonstrates than an author has no real freedom in this system, he is only co-author and rendering can change very quickly. So, Internet is a specific context, suitable for diffusion but I think that visual works have a short time of life. It must be doubled with other digital modes of diffusion. In fact, specific works can be made for the Internet in relation with databases, streams, agents and robots… It is a new kind of work.

Born in 1957, Philippe Bootz works as an assistant professor of multimedia at the University of Versailles-St. Quentin and as a researcher at the Paragraphe Laboratory (University Paris 8) and at the Laboratory of Digital Music of Marseille (MIM). He has been a contributor for multimedia at the ENSCI (Paris) since 1999, and the president of the association, MOTS-VOIR, since 1984. Philippe Bootz is the co-founder of the French group, L.A.I.R.E., since 1988, and since 1989 the editor of alire, the first European multimedia journal and review of electronic poetry. He also cofounded the international collective, Transitoire Observable, in 2003. As an author, he has been working with text installations as well as with programmed poetry since 1978.

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Fundado no segundo semestre de 2008, o Grupo de Pesquisa em Narrativas Digitais e-Storias, é a expressão do desejo de compreender as narrativas criadas no ou transpostas para o ambiente digital.

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