Foi através de uma competição de jogos independentes que soube da proposta do grupo Tale of Tales, o The Graveyard. O grupo propõe uma experiência narrativa, a qual consideram como um jogo, defendendo aliás tal expressão como uma prévia do futuro dos jogos narrativos.
Quem conferir este trabalho (agora com a versão completa a venda na internet) experimentará uma interface reativa com gráficos agradáveis que permitem muito mais a reflexão subjetiva do que um engajamento com qualquer enredo possível. Essa experiência, aliás, não possui enredo definido, nem trama e nem objetivos delineados, embora demonstre as limitações especificadas pelo meio com o qual se propõe a trabalhar.
A primeira questão passível de ser levantada durante essa experiência seria: “The Graveyard é um jogo?”. Embora seus criadores defendam que sim e o próprio sentido do termo jogo seja bastante amplo, The Graveyard se apresenta muito mais como uma narrativa poética bastante subjetiva do que como um jogo.
Por quê? Bem, The Graveyard trata de assuntos profundos, bem como os jogos também podem vir a tratar, porém no lugar de regras, The Graveyard possui limitações de construção. Também não possibilita ao usuário (que no caso de um jogo seria o jogador, mas aqui desconsidero usar este termo) agir sobre o meio e nele causar alguma interferência ou mesmo reação baseada em regras culminando num objetivo. A simples navegação é o que compõe este ambiente.
Voltando um pouco na história dos jogos narrativos, os livros-jogo já haviam trabalhado com a proposta de se “navegar” pela história. Claro que tudo de uma maneira muito mais rudimentar do que a proposta pelas novas tecnologias. The Graveyard não possui enredo, embora proponha uma história e incide nos mesmos problemas dos livro-jogo: permite ao leitor/jogador apenas transitar pelos trechos da história, sem poder agir ou mesmo reagir com o cenário de maneira adequada. O único propósito de ambas propostas é chegar ao final, seja do livro ou da experiência gráfica navegável. A semântica aberta de The Graveyard é o que difere esta experiência das demais dos livros-jogo. Não há enredo linear, mas interpretações subjetivas possíveis. Se existe um jogo escondido em The Graveyard, ele ocorre unicamente graças a cognição do próprio usuário que brinca com os signos e seus significados possíveis.



